Este blog é uma espécie de diário de viagem e impressões que - querendo ou não - acabam influenciando diretamente meu trabalho como atriz e dramaturga, afinal quem trabalha com teatro não consegue pensar em outra coisa que não seja teatro!
Faz pouco mais de uma semana que estou em Maceió, acho que só agora caiu um a ficha de que passei dois meses e meio morando em Buenos Aires, na verdade parece que lá vivi uma realidade paralela da vida que levo em Maceió e que agora vou retomá-la.
Sempre gosto de fazer um balanço entre prós e contras de situações importantes de minha vida, sem dúvida aprendi muita coisa em terras porteñas, e não se trata apenas de teatro, nem tem muito haver com a compreensão de um outro idioma, tudo isso foi muito importante, mas o que se leva nas células é a experiência de vida, e, no meu caso, a análise da minha relação com o mundo.
Continuo sendo uma pessoa muito fechada e um tanto tímida, continuo tendo minha necessidade de estar sozinha em alguns momentos, mas não posso negar que senti muita falta dos meus amigos e da minha família. Gostei dessa minha "desintoxicação" de me policiar em relação a ingestão de carne vermelha e de ter resistido ao cigarro, espero que essas coisas boas de Buenos Aires eu consiga manter aqui em Maceió.
Não li tanto quanto o que eu gostaria, mas andei muito, vi muita coisa que ninguém pode me arrancar da memória, na verdade li muito sim, li muito do mundo que estava ao meu redor e essas impressões de fato ficaram impressas em mim, seja na temperatura ou nas músicas que escutei [e que sinto falta de ouvir], seja no sabor dos doces ou no cheiro das estações de metrô.
Renovei minha fé, repensei alguns conceitos e pré-conceitos, me reafirmei como mulher, refleti um bocado sobre minha postura dentro da sociedade em relação a muitas coisas que vão desde o que eu decidi escolher como profissão até minha orientação sexual. Pra tudo isso acredito que é necessário um certo "distanciamento" das minhas ações cotidianas.
Não digo que voltei outra pessoa de Buenos Aires porque acredito que seria um exagero, voltei diferente, com algumas coisas a mais e outras a menos, nem melhor nem pior, diferente apenas, talvez com mais conteúdo e um pouco menos de preconceitos, preconceitos no sentido de não ter mais vergonha de me reconhecer como latinoamericana e admitir que todos nós somos bregas e passionais.
Deu vontade de conhecer outros lugares, mais de turistar do que qualquer outra coisa, sem ficar louca alucinada pensando em teatro o tempo todo. Bom, abaixo postei dois vídeos que eu deveria ter postado enquanto ainda estava lá, mas vale a pena dar uma olhada, fica aí um pouquinho do muito que eu pude vivenciar.
Ui, as temperaturas estão baixando e estão baixando com gosto, mas esse primeiro fim-de-semana do inverno foi muito especial pra mim, pois, meu querido amigo Andrey Melo, meu Deus do Céu, Buenos Aires nunca foi tão divertido quando nesses dias, claro que dá pra se divertir horrores sozinha, mas entre amigos é muito mais gostoso. Juro, se pudesse organizava linda uma excursão só dos meus amigos mais queridos pra passar o começo do Outono nessa cidade, tudo aqui fica tão charmoso.
Por sugestão de uma amiga de meu amigo, Sexta-feira nossa primeira parada foi num restaurante nipônico-peruano chamado Páru, em Palermo, bom, comida japonesa é cara em qualquer lugar do mundo [talvez no Japão não seja], mas a comida de lá é muito boa, a gente comeu uns sashimis de salmão com molho de maracujá que parece coisa de outro mundo de tão gostoso, só não tento fazer isso em casa porque sou uma tremenda negação na cozinha, senão...
Nossa segunda parada da noite, AMÉRIKA, tudo bem que foi a terceira vez que eu fui lá, mas pareceu ser a primeira, não sei o que aconteceu, tava mais cheio, as pessoas estavam mais descontroladas, ou era porque estava em boa companhia dessa vez. Na verdade, eu reparei que determinadas coisas só podem acontecer mesmo nessa cidade, acho que Maceió não tem tamanho pra certas pirações, como diz a música "... la gente está muy loca..." [videozinho abaixo, porque eu nem sei se em Maceió essa música toca].
Tem muita música que eu sei que não tá tocando ainda em Maceió, e é muito engraçado encarar uma noite inteira nas boates daqui porque toca de Madonna até bom, Kuduro, e as pessoas absurdam nesses outros ritmos, teve uma hora que tava tocando um bate estaca da época da Heaven [eu tô ficando velha] que quando eu olhei ao redor só tava Andrey e eu dançando. Enfim, gosto é feito braço...
Só não gostei desse
gordinho no meio da foto
Sabadão de molho, Domingo me joguei na Feria de San Telmo mais uma vez, só que em sessão regalitos, chegando a Plaza de Mayo, tive uma grata surpresa, uma solenidade militar, com direito aos soldados em traje de gala, tocando, cantando e em alguns momentos fazendo coreografias, não gosto muito dessas coisas militares não, mas me pareceu tão cênico que eu parei pra olhar, queria ter filmado, mas se tivesse feito isso não dava pra fotografar.
Por ser inverno a luz do Sol vem numa angulação linda, parece capaz de deixar quase qualquer foto ótima, quem tem olhos mais treinados pra isso deve fazer a festa nas proximidades dos polos no inverno. Por outro lado, esse mesmo inverno está me despelando as mãos e me queimando os lábios [nessas horas acho ótimo não estar namorando], não me assustaria se em breve eu começasse a usar batom.
Pré-Brujas
Pra terminar a noite fomos ao Complejo Brujas Madagascar, eu já tinha ido pra o bar, dessa vez conheci a disco, MUITO BOM, fica em Palermo Soho, a parte disco funciona 364 dias por ano, só fecha dia 1º de Janeiro, do mais funciona o ano todo, independente de frio, chuva, calor. Não sei como funciona o sistema de entrada, mas pelo o que consumimos o máximo que foi gasto por cada daria uns R$20,00. Piração total, pizza boa, cerveja ótima, no meio da noite começou a tocar música eletrônica, teve um strip-tease quase total de uma menina [linda e não-vulgar] e a gente na pista. Bom, essa balada não é GLS, mas dá pra se divertir de boa, não fomos hostilizados em momento nenhum e deva pra identificar alguns casais gays [discretíssimos, claro].
Acho que pra noite ter ficado perfeita faltou meu querido amigo Maurício Ebbers, não posso ouvir Shakira que lembro dele, só estando longe de casa pra gente ter uma noção do que sentimos mais saudades. Esse fim de semana foi pouco teatral, mas acho que foi o que mais se aproximou da minha vida em Maceió.
Bom, nem sei exatamente o que eu pretendo falar hoje, tenho saído pouco e o fato de estar se aproximando o dia de regressar à Maceió também me deixa um pouco preguiçosa. Também não caberia comentar sobre o amor da minha vida encontrado fim-de-semana passado porque já escrevi sobre isso, e enfatizando mais uma vez AGORA SIM EU ACREDITO EM AMOR A PRIMEIRA VISTA, enfim, vamos ao que interessa, quero muito compartilhar o último dia do Outono aqui no Hemisfério Sul (dia 20 de Junho).
Na Argentina esse dia é feriado, dia da Bandeira, esquecendo desse fato fui para o Jardim Botânico de Buenos Aires, eu já tinha ido lá antes, mas sem máquina fotográfica, seguramente é um dos lugares mais bonitos dessa cidade, primeiro pela natureza como um todo e segundo pela quantidade de obras de arte espalhadas pelo Jardim, claro que tem outros lugares na cidade que são parecidos, mas dentre os que eu conheci esse é o mais mágico e pra minha grata surpresa a natureza resolveu ajudar no registro da magia desse último dia do Outono, desde sempre essa foi a estação do ano que eu mais gostava, mesmo tendo nascido em Maceió, uma cidade que só tem períodos de calor com chuva e períodos de calor sem chuvas.
Acho o Outono charmoso, dá um ar meio bucólico as cidades grandes e aqui como tem muitas árvores, as ruas ficam cobertas com um tapete dourado das folhas das árvores caídas no chão. O Outono parece ser uma espécie de Fênix das estações do ano, claro que é o prenúncio do cinzento e depressivo Inverno, mas quando o Sol parece, os raios parecem mais dourados, mais bonitos, mais precisos, como se descortinasse a beleza natural entre as frestas de concreto. Passei aqui dois terços da estação e fiquei maravilhada, me sinto bem em climas menos quentes e por esse tempo que estou aqui, percebo que já estou mais acostumada ao frio.
Só pra vocês terem uma noção da quantidade de folhas
Tenho medo do Inverno porque tenho medo da depressão, assumo, tenho meio da linha tênue que nos mantem sãos mentalmente, por mim do Outono partiríamos direto para a Primavera, mas tudo necessita de equilíbrio e respeitemos o tempo que a natureza tem.
Acho que o Outono me desperta paixões, me inspira, o clima é ameno, o vento ainda não é tão frio e o Sol não é mais tão forte. Dá pra tomar um café sem morrer de calor e dá pra tomar sorvete sem congelar por dentro. É um clima que você corre e não transpira, que dá vontade de seguir pelas ruas andando por horas e horas se não estiver chovendo. Gosto de me relacionar com a cidade e gosto mais ainda quando o clima converge pra essa relação. Já amo Buenos Aires como amo São Paulo. Quero outros Outonos em outras cidades, quero saber como isso chega em mim, como me influencia como mulher e como artista.
Cheguei ao local, debaixo de chuva, o céu parecia ter uma estrobo de tanto que piscava com os relâmpagos. Encharcada do meio da coxa pra baixo, paguei, recebi o troco, meu dinheiro caiu, me abaixei, peguei o dinheiro, me levantei...
Botas creme, calças que não lembro a cor, camisa, casaco azul com cinza, as mãos seguravam um revista, no polegar da mão esquerda um anel prateado, no dedo médio da mão direita um anel vermelho de acrílico, unhas curtas, bem feitas mas sem pintar. Cachecol colorido. Lábios com gloss rosa, bem clarinho, nariz fino, lindo. Cabelos curtos, castanho claro. E mesmo tendo observado tudo isso, não sei qual seu nome. Linda, linda do tipo que normalmente não olho tanto. Meu coração na hora acelerou, sem nenhum motivo aparente. Eu nunca consegui observar tanta coisa num espaço de tempo tão curto.
Fui para o outro lada da sala, sentei, tirei o livro e o mp3-player da bolsa, olho pra ela, ela olha pra mim, direto nos olhos, tremo, desisto de ouvir música, ela passa pra um lado, passa pra outro, eu sentada estava, sentada continuo, ela toca em meio joelho e senta-se a meu lado. Eu tremo, tento ler o livro de cabeça pra baixo, tensão no ar, parece que a qualquer momento, qualquer uma das duas vai falar alguma coisa... e NADA.
Ela levanta, eu sigo com os olhos, ela pega um cigarro, para na porta, olho pra ela, ela olha pra mim, sorrio, ela sorri de volta, e eu só consigo dizer "Hola", ela sai pra fumar, alguém entra, a porta fica entre aberta, olho, ela está lá, e também me olha. Pessoas chegam e não consigo encontrar mais seus olhos.
Nunca me senti assim, provavelmente eu achei o amor da minha vida dessa semana e sem brincadeira dessa vez. Mas do mesmo jeito que eu nunca senti isso antes, nunca mais vou encontrá-la... bobagem, tudo foi tão bonito que mais parecia filme...
Ok, é meio chato falar de nós mesmos, mas vamos lá...
Me chamo Daniela Beny, tenho 29 anos, nascida sob o signo de Sagitário com ascendente em Virgem e lua em Touro. Meus nomes, bem, um significa Deus é meu juiz e o outro significa aquele abençoado por Deus, e eu acredito sim que nós carregamos o significado do nome pras nossas vidas [nossa, que papo tão exotérico assim...]E como se não bastasse o arquétipo do centauro, ainda tenho como pais de cabeça Iansã e Ogum [tô feita né!].
Trabalho com teatro de forma profissional desde 2003, como é a realidade de quase todos os lugares do Brasil, além de atriz, sou dramaturga, trabalho como produtora executiva, elaboro projeto, vendo ingresso, opero luz e som, me meto a dirigir e tudo mais que for necessário, mas gosto muito de explorar as possibilidades estéticas de um espetáculo, seja através de iluminação, cenografia ou figurinos.
Nasci em Maceió/AL, morei um tempo em Vitória/ES e em São Paulo, passei um tempinho em Buenos Aires e quero continuar me espalhando pelo mundo... me considero territorialmente inquieta, por mim, minhas malas viveriam prontas.
Terminei o Curso de Artes Cênicas: Licenciatura em Teatro pela UFAL (Universidade Federal de Alagoas), onde desenvolvi o projeto de iniciação científica "Dramaturgia Maceioense do Século XX" e atuei como aluna pesquisadora do NACE (Núcleo Transdisciplinar de Pesquisa em Artes Cênicas e Espetaculares). Hoje em dia curso Especialização em Antropologia pela mesma UFAL, trabalho como professora de Artes e ainda faço um montão de coisas.
Fundei com alguns amigos a Invisível Companhia de Teatro (www.invisivelciadeteatro.blogspot.com), sediada em Maceió/AL, onde atualmente temos dois espetáculos prontos e contamos com alguns projetos em processo de montagem. Também faço parte da Patacuri - Cultura, Formação e Comunicação Afro-Ameríndia (www.patacuri.blogspot.com) que visa trabalhar projetos socioculturais para comunidades afro-ameríndias.
Quanto às preferências, lendo o blog elas se mostram naturalmente...